Jornal O Debate entrevista Dary Bonomi Avanzi

Jornal O Debate entrevista Dary Bonomi Avanzi

Dary Bonomi Avanzi é um são-manuelense, nascido no dia 14 de novembro na Fazenda Redenção em São Manuel, mas foi registrado na cidade de Vitoriana, na época Distrito de Botucatu, pois era mais fácil chegar à Vitoriana do que em São Manuel. Dary morou com os pais e a irmã Maria Darcy, numa casa nas imediações da Escola Profissional Agrícola Dona Sebastiana de Barros, onde seu pai, Sr. Antônio, era chefe de cozinha da escola, embora não tivesse curso de gastronomia. “Era um curioso que deu certo na cozinha”, comenta ele. Dary estudou na Escola Dr. Augusto Reis. E aos 13 anos prestou um exame em Botucatu para o curso de Telegrafista, onde passou em 6º lugar. Durante dois anos fez o curso, onde alternava os dias entre Botucatu e São Manuel, onde já começava a prestar serviços na Estação. Com 15 anos foi nomeado pelo então Governador Jânio Quadros, para assumir o posto de Servidor Público na Estrada de Ferro Sorocabana em Presidente Prudente. Daí para se tornar uma pessoa muito conhecida no meio das telecomunicações foi um pulo. Em 1970, já morando em São Paulo, prestou um concurso na Secretaria de Segurança Pública e foi designado para o Palácio do Governo, no bairro do Morumbi, onde o Governador era Laudo Natel e lá ficou por muitos anos. E em 1996, criou o Grupo Avanzi, junto com seus filhos. Há 47 anos é casado com Neusa Maria Domingues Avanzi, com quem teve três filhos, Dani Marcos Avanzi, Alexandre Roberto Avanzi e Dari Carlos Avanzi e 5 netos, Giovana, Isabela, Marco Antônio, Ana Clara e Melissa. Nesta entrevista ao Jornal O Debate, Dary conta sobre os 60 anos de atividades ininterrupta no mesmo ramo, e também alguns fatos ocorridos em todos esses anos de profissão e experiência.

Jornal O Debate: O senhor nasceu em São Manuel?

Dary Bonomi Avanzi: Sim, eu nasci na Fazenda Redenção, mas fui registrado na cidade de Vitoriana, na época, Distrito de Botucatu.

OD: Onde fez seus primeiros estudos?

Dary: Estudei na Escola Dr. Augusto Reis, depois prestei um exame para o curso de Telegrafista em Botucatu, onde passei em 6º lugar.

OD: Como era o Curso de Telegrafista?

Dary: Eu fiz o curso de telegrafista nos anos de 1956 e 1957 e alternava os dias entre São Manuel e Botucatu. No dia de aula teórica, eu pegava o trem em São Manuel para Botucatu, com passe e almoço pago pela ferrovia. E além das aulas de telégrafo, tinha também aulas de matemática, português e principalmente de geografia, pois tínhamos que conhecer cada pedacinho de terra do estado para saber todos os entroncamentos da ferrovia. No dia de aula prática, ficava em São Manuel praticando várias atividades na estação, em período integral, como manipulação de telégrafo, venda de bilhetes para passageiros, taxação de telegramas, despachos de bagagens, despachos de sacas de café, gado e açúcar. Ajudava ainda nas manobras dos trens de carga e alguns maquinistas até me deixavam pilotar a Maria Fumaça.

OD: Como funcionava o telegrama naquela época?

Dary: Na época a nossa internet era feita pela ferrovia, ou então em algumas cidades, ferrovias e correios, mas São Manuel não era uma cidade que comportava ainda a telegrafia nos correios. Então era feito 100% pela ferrovia. As pessoas quando queriam mandar notícias, iam até a estação, preenchiam um formulário e dependendo do número de palavras, uma taxa era cobrada. Mandávamos o telegrama para Botucatu, que retransmitia para São Paulo, que retransmitia para outras capitais até chegar no interior. Por exemplo, um telegrama que fosse para São Paulo, chegava na Estação Júlio Prestes e um funcionário ia na rua mencionada para entregar ao destinatário. O que retardava a entrega eram as baldeações, daqui para São Paulo era rápido, era feito no mesmo dia, mas para outros lugares as baldeações faziam demorar, pois haviam muitos coletores.

Os telegramas que nós transmitíamos eram de várias modalidades, assuntos particulares, avisos sobre saúde, nascimento ou morte de um parente. E também o serviço do comércio, passando a data dos recebimentos das mercadorias, solicitação de mercadorias e também mensagens de protestos e duplicatas, e no final da tarde, nós recebíamos dos bancos as ordens de pagamentos que eram feitas por telégrafos. Por exemplo, fazia-se uma remessa de dinheiro para o Rio de Janeiro, o banco aceitava e a tarde, passava um telegrama com nome do banco, agência, cidade, recebendo depois a confirmação do nome da pessoa, do remetente e o valor através de uma chave bancária sigilosa. Não existiam falcatruas e nem desonestidade.

Tenho lembranças boas dessa época. Lembro-me de um dia em 1957, que houve um casamento em São Manuel e batemos o recorde, 100 telegramas, onde geralmente havia de 10 a 15 telegramas por dia.

Um fato interessante era que toda tarde eu descia para o Banco Comércio e Indústria com um pacote de dinheiro enrolado com muita tranquilidade, parava para conversar com as pessoas, não tinha medo. Chegando ao banco, sempre muito tranquilo, entregava o pacote, e ficava sentado esperando contar todo dinheiro. Depois eles emitiam um cheque administrativo, que eu levava para a estação e enviava por malote para Ferrovia em São Paulo. Não havia assalto, e era muito dinheiro, pois além do dinheiro em espécie, dinheiro de passagens, de telegramas, de despachos de bagagens, Os mais valiosos, eram os formulários do depósito em café, valia dinheiro, era como um cheque ao portador, nos dias de hoje, seria equivalente a R$ 1 milhão.

OD: Por quantos anos o senhor ficou na Ferrovia?

Dary: Eu fui nomeado em Presidente Prudente no dia 18 de agosto de 1958, pelo então Governador Jânio Quadros, como Servidor Público, da Estrada de Ferro Sorocabana, onde fazia não só o trabalho de telégrafo, mas também todo o trabalho desenvolvido numa ferrovia. Fiquei até 1965 em Presidente Prudente e depois fui transferido para São Paulo, onde ainda permaneci na ferrovia por mais uns anos.

OD: Na época do telégrafo, como era feito o trabalho para divulgar as notícias nas rádios?

Dary: Em Presidente Prudente, cheguei a fazer bicos nos jornais e nas rádios da cidade. “De duas em duas horas recebíamos notícias, via Código Morse, das agências internacionais UPI, France Press, Ansa, Tass e da brasileira Sport Press. Transcrevíamos em laudas e passávamos para o redator do jornal ou locutor do jornal falado”, conta ele. “As principais notícias da época estão gravadas na memória, como quando Fidel Castro toma o poder de Fulgencio Batista em Cuba, a piora na Guerra Fria nos Estados Unidos e Rússia, a agonia do papa João XXIII, a execução de Caryl Chessman na câmara de gás em 1960, o assassinato de John Kennedy em 1963, as Guerras do Camboja e do Vietnã”, completa.

OD: Depois de muitos anos na ferrovia, como o senhor entrou para a Segurança Pública?

Dary: Em 1970, passei em um concurso em São Paulo, na Secretaria de Segurança e fui designado para trabalhar no Palácio do Governo, na época já localizado no Morumbi, onde o Governador era Laudo Natel. No Palácio dos Bandeirantes, passei a operar rádios denominados SSB (single sidband), por voz. Aí apareceram meios que revolucionaram a telefonia, como equipamentos de PXB, o DDR (discagem direta a ramal), DDI (discagem direta internacional) e DDD (discagem direta à distância).

OD: Como surgiu o livro Do telégrafo à Internet?

Dary: Um dia o Diretor da Anatel, Dr. Everaldo Ferreira, hoje já não está mais na Anatel, me chamou e disse que eu precisava escrever um livro sobre a área dos telégrafos, pois a Anatel não possuía acervos sobre o assunto. Pensei muito e deixei o assunto de lado, pois não enxergava o meu aprendizado sendo passado para outras pessoas, achava que não tinha tanta importância. Depois de uns meses o diretor me chamou novamente para dar uma palestra para 70 pessoas na Anatel sobre as telecomunicações. E novamente falou sobre um livro. Um dia jantando com amigos em Assis, um deles, o Sr. Bellini me fez a mesma pergunta: “Porque você não escreve um livro com sua história?”. E na mesma hora ligou para o escritor Marcos Barrero, que já havia escrito um livro sobre a história de Jaú, sobre o time do Santos Futebol Clube e a história da Câmara Municipal de São Paulo.

Marcamos um encontro e conversamos por quatro horas. Fui passando todas as informações para ele e revisei umas dez vezes, e mesmo assim quando o livro foi lançado, eu percebi que deixei de contar muitas coisas.

O livro foi lançado no dia 9 de dezembro em 2015, no bairro da Lapa em São Paulo, no Espaço dos Bosques, onde contei com a presença de muitos amigos e companheiros.

OD: Em 1996, o senhor e seus filhos criaram o grupo Avanzi. O que engloba esse grupo?

Dary: O Grupo Avanzi é composto de 3 empresas: Avanzi Soluções, Avanzi Comunicações e uma empresa voltada para DMR veiculares, que são câmera de veículos, que dão maior segurança, além de um rastreamento pela internet da localização dos veículos. E tem também o ITA Avanzi, Instituto Dary Bonomi Avanzi, que tem como finalidade pesquisas e coisas culturais. Tenho um Museu, que está para ser montado, onde garimpei peças únicas de telégrafos pelo mundo todo, pois no Brasil, muitas peças tinham sido incineradas. Nós temos um telégrafo que foi usado há muito tempo no correio e no Brasil foi derretido. Encontrei essa peça na Suiça e na Itália.

A finalidade do grupo Avanzi é consultoria em telecomunicações, nós temos a Polícia Militar do Estado de São Paulo e nosso maior segmento são as Usinas de Álcool e Açúcar, inclusive a Usina de São Manoel, onde prestamos consultorias. Atualmente prestamos consultoria para mais de 200 usinas.

OD: Finalizando essa entrevista, o senhor gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

Dary: Durante todos esses anos tive apoio de toda minha família, da minha esposa, Neuza, com quem estou casado há 47 anos. Conheci a Neusa na Estação Júlio Prestes em São Paulo, onde ela era telefonista. Meus três filhos, que também são da área de comunicação, sendo dois do Grupo Avanzi e outro que tem uma empresa em Ribeirão Preto. Eu fico muito feliz de ter vindo para São Manuel conceder essa entrevista aoJornal O Debate, porque eu já fui há muitos lugares e já dei muitas entrevistas, mas não tinha vindo para a cidade onde nasci e é o meu berço, então agradeço a D. Marisa Luizetto, que durante um encontro me trouxe até vocês.