Assis reverencia ilustre visitante

36c5d102f3505f00beffd31da1845664_XLO empresário e consultor de telecomunicações Dary Bonomi Avanzi visitou Assis nesse final de semana. Ele está completando 60 anos de atividades e pretende se habilitar para obter o ingresso no Guiness – O Livro dos Recordes -, como um dos mais antigos profissionais do ramo da comunicação do mundo. Ainda neste ano sairá, também, sua biografia – Do Telégrafo à Internet -, escrita pelo jornalista e escritor assisense Marcos Barrero.

Em 6 décadas de trabalho, Dary transitou do telégrafo de agulha à internet. Começou como telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana e hoje é o presidente do Grupo Avanzi, instalado na Alphaville, São Paulo. A rigor, ele se iniciou em 1956, aos 13 anos de idade, e mantém atividade ininterrupta no setor de telecomunicação até hoje. Aos 73 anos de idade, o empresário ainda trabalha diariamente na sede de sua empresa e no atendimento a clientes de todo o Brasil, viajando ora de carro ora de avião. Está plena atividade, em tempo integral, e visita frequentemente a região de Assis no atendimento a seus clientes. Abaixo, a entrevista que ele concedeu a VOZ DA TERRA.

Há quantos anos o Sr. está na profissão?

São 60 anos de trabalho duro, diário, dividido entre a sede da minha empresa em São Paulo e o mapa do Brasil. Isso porque minhas deslocações pelo país, para atender clientes pessoalmente, são frequentes. Um dia em Alagoas, em seguida em Goiás, um pouco mais tarde no Pontal do Paranapanema. Na estrada ou no ar, de carro ou de avião, assim é minha rotina de consultor. Acho que abri caminho e praticamente inventei muita coisa no ramo. Enfrentei um território praticamente virgem quando comecei a trabalhar nessa área. Percorri uma trajetória que foi do telégrafo à internet, o que me proporcionou conhecimento histórico, uma ampla visão e expertise na minha atividade.

Sua entrada no setor, então, foi precoce?

Me iniciei aos 12 anos e aprendi o ofício manuseando telegrafo de agulha – hoje peça de museu – na extinta Estrada de Ferro Sorocabana. Nasci numa fazenda em São Manoel, mas, profissionalmente, fui nomeado aos 14 anos para a região de PresidentePrudente, que era muito longe e com acesso difícil. Fui parar numa localidade chamada Teodoro Sampaio, me acomodei numa pensão e assumi os serviços de telegrafia na ferrovia, que ficava a 2 km do núcleo central. Cheguei lá a bordo de um jipe Rural Willys, depois de três dias de viagem. Permaneci em Teodoro até 1965, quando fui transferido para São Paulo, onde meus horizontes pessoais e profissionais se ampliaram.

Quando e como foi sua entrada no segmento sucroalcooleiro?

Faz aproximadamente 30 anos. O começo de tudo foi numa empresa chamada Zilo. Eu havia trabalhado no Palácio do Governo e em grandes empresas, como a Anderson Clayton. Em todos os lugares, sempre estive ligado ao setor de telecomunicações. Estabeleci como meta ser curioso, pesquisador. Sempre fui além do que me pediam e me mantenho antenado até hoje, acompanhando as mudanças e inovações técnicas da comunicação eletrônica. Um dia, numa das empresas em que trabalhei, meu chefe, Omar Meirelles, disse: ‘Esse rapaz vai ser diferente’, me comparando com os demais funcionários do setor de comunicações. Sei que não disse isso porque via em mim algo de extremamente brilhante. Mas, com certeza, via aplicação, dedicação e curiosidade.

O que o levou ao trabalho de consultoria?

Uma inquietude pessoal e profissional. Sempre perguntei a mim mesmo: ‘ o que mais posso fazer?’. Em 1980, decidido a diversificar a minha carreira e ainda funcionário público, passei a prestar consultoria para a Gessy Lever. Em seguida, acumulei também uma assessoria ao Dentel, órgão do governo federal que controla as comunicações no país, hoje incorporado pela Anatel. Paralelamente a minha profissão original de telegrafista, as oportunidades foram surgindo naturalmente. Uma coisa como conseqüência de outra. Afinal, tudo se descortinava como uma evolução da minha própria atividade. Minha virtude talvez tenha sido vislumbrar um horizonte de atuação e investir nele. Deste modo, aos poucos, fui construindo uma carteira de clientes que é a maior do Brasil no ramo e da qual me orgulho, por fazer constar nela marcas, empresas e usinas que formam comigo uma parceria desde o princípio do Grupo Avanzi. Entre outras coisas, isso demonstra fidelização, que é sinal de seriedade, profissionalismo e bons serviços prestados. Ninguém engana ninguém, impunemente, por mais de três décadas. Se estou na praça, que foi areia movediça para muitos que ficaram pelo caminho, é porque tenho coisa boa para vender. Como se diz, grosso modo: vendo e entrego. Neste meio, não há outra forma de sobreviver por muito tempo.

Em outras palavras, radiocomunicação – sobretudo no setor sucroalcooleiro – não é atividade para aventureiros?

Definitivamente, a praia é para profissionais. Levo certa vantagem porque no panorama geral tenho mais tempo e mais experiência. A maioria dos profissionais em atividade hoje pegou o trem – para usar uma linguagem ferroviária – no meio do caminho. Posso dizer que 99 por cento têm esse perfil. Alguns até desconhecem as técnicas e os instrumentos mais antigos que, se hoje estão em desuso, não podem ser ignorados. Significam história, técnica e conhecimento acumulado.

O Sr. viu tudo em termos de radiocomunicação?

Aprendi o ofício usando um telégrafo por fio criado nos anos 1840. O meio sobreviveu, aliás, até 1983. Passei, na verdade, por seis telégrafos diferentes – inglês de agulhas , espanholete, morse, telegrafo por fita e baudot de cinco teclas. Depois, a coisa prosperou ainda mais e passou para o rádio sem fio. Em seguida, veio teletype, por fita gomada, uma criação de 1920 que perdurou até 1983, tanto na ferrovia como nos Correios.

As mudanças foram rápidas, a partir daí?

Foram e continuam. Ainda nos idos de 1950, no teletype já via rádio, trafegavam as grande empresas noticiosas, tais como France Press, UPI, Agência Hans, Asa Press e Agência Tass, que era do governo russo. O mundo foi se aproximando da chamada aldeia global e as comunicações foram ficando mais rápidas. Na mesma época, já tínhamos os telex por fio, com fitas de cinco caracteres. Em 1964, o número deste tipo de aparelho começou a crescer. Com a criação da Embratel foi estabelecida no Brasil a rede nacional de telex, operada por meio de microondas. Substituiu em muito os telégrafos por fios e mesmo aquele via rádio.O avanço tecnológico foi tão grande que, em pouco tempo, tínhamos o telex quase em todas as empresas brasileiras. Em 1967, a transmissão pela modalidade AM foi encerrada no Brasil por decreto, entrando o SSB. É um modelo de equipamento de radiofonia que muito contribuiu nas conexões para os locais onde não chegavam os telex. Tal modo de comunicação foi entrando nos mais longínquos lugares, como propriedades rurais em nível nacional, grandes grupos do agronegócio e transportadoras, entre outros. A aceleração foi enorme. Era novidade atrás de novidade. Em 1970, já tínhamos capitais interligadas pelo sistema de telefonia via microondas. Lembro que o Paraná foi um dos primeiros Estados do país a introduzir o sistema de discagem DDR em suas cidades. E Maringá, norte do Estado, foi o primeiro município a contar com o sistema DDI de telefonia internacional.

E os aparelhos radiocomunicadores em VHF e UHF?

Chegaram em 1975. Mas, no princípio, não eram utilizados em grande escala. Foram instalados em alguns órgãos públicos como polícia e bombeiros. Poucas usinas de açúcar contavam com eles. De lá para cá, o número de permissionários foi crescendo sem parar. Hoje é o principal meio de comunicação doméstica em uma empresa.

As consultorias acompanharam esse avanço e as necessidades do mercado que se abria?

Aos poucos, começaram a aparecer as primeiras empresas. Não mais do que umas seis. Depois, a partir de 1990, se desencadeou um processo de novos nomes e empresas que virou uma febre no mercado. Atualmente, só no estado de São Paulo podemos dizer que em cada cinco cidades existe um endereço comercializando rádios. São, em geral, profissionais focados apenas no lado comercial e imediato do mercado, com conhecimento técnico e histórico apenas a partir do advento do VHF/UHF. É lamentável porque fica oculto todo um passado, totalmente ignorado ou desprezado. Por sinal, muitos pensam que a comunicação via rádio apareceu de 1990 para cá. Muitas pessoas se espantam quando falamos que um avião não decolava sem o operador de radiotelegrafia. Presidentes, governadores – enfim, qualquer autoridade governamental – sempre tinha a figura do telegrafista em sua comitiva, elemento indispensável ao sucesso das viagens.

O que veio em seguida?

Apareceu o fax. Pouca gente sabe que, desde 1973, já fazíamos os primeiros testes do aparelho por linha física. Mas foi somente em 1990 que ele vingou como ferramenta do dia a dia . Nos anos que se seguiram, o telex entrou em decadência e teve vida curta. Logo foi substituído pelo fax, hoje pouco usado, e os meios da internet. A partir de então, um novo mundo se desenhou com a internet. Algo equivalente a Revolução Industrial. Vale destacar que um meio não exclui outro, mas acrescenta, soma num cenário de convergências de mídia.

Entrevista: Marcos Barrero – Especial para o Jornal Voz da Terra.

Link da entrevista: http://www.vozdaterra.com.br/entretenimento/especial/item/7772-assis-reverencia-ilustre-visitante.html