A pátria no divã

A pátria no divã

Nunca antes na história do Brasil, tantas pessoas se reuniram em manifestações apartidárias. Tão apartidárias, que os partidos políticos que tentaram integrar os movimentos foram expulsos

A era moderna teve como marco inicial importantes acontecimentos ocorridos nos idos do século XVIII como a Revolução Industrial em 1750 e a Queda da Bastilha em 1789.

Afirmam alguns historiadores, que a era moderna perdurou o até o fim da guerra fria, que tem como marco simbólico a queda do Muro de Berlin em 1989, que dividia as duas Alemanhas Oriental e Ocidental. Durante o lapso de tempo (de 200 anos) que medeia o início da era moderna e seu ocaso, reinos se desfizeram, fronteiras foram remodeladas, ideologias nasceram, cresceram e morreram.

O acumulo de riquezas pelos comerciantes, industriais e banqueiros durante o século XIX e início do século XX na Europa, criou uma tensão social que os sociólogos definiram como luta de classes, que existe até hoje devido a má distribuição de riquezas em todo o mundo, em alguns países mais que outros.

Esse conflito, em verdade, sempre existiu alternando momentos de aparente calma, quando as massas estão sob controle e momentos de definição como a Revolução Francesa, por exemplo. Ainda nesse interregno, questões políticas, financeiras e ideológicas, fomentaram guerras em todo o mundo, sendo as principais a primeira e a segunda guerra mundial, que teve como desdobramento a Guerra Fria, que também teoricamente acabou em 1989 com a queda do Muro de Berlin.

No Brasil, nesses 2 séculos muita coisa aconteceu. Podemos citar entre as principais: a proclamação da república, o desenvolvimento de uma sociedade industrial ao longo século XX, a luta entre ideologias capitalista versus comunista, a sucessão de governos ditatoriais e governos legitimamente democráticos, na qual desde 1985 tem prevalecido o Estado democrático de direito, saliente-se pelo período mais longo de toda a história republicana.

Nos últimos 200 anos presenciamos  proclamação da república e a promessa do país do futuro.
Nos últimos 200 anos presenciamos proclamação da república e a promessa do país do futuro.

Nesse contexto, importante ferramenta de representação popular são os partidos políticos, criados para expressar ideais, pensamentos e anseios da população. Na prática foi assim, por muitos anos.

As atuais manifestações populares ocorridas em todo o Brasil demonstram inequivocamente o final da Era Moderna. Nunca antes na história desse país, como diria o ex-presidente Lula, tantas pessoas se reuniram em manifestações apartidárias. Tão apartidárias, que os partidos políticos que tentaram integrar os movimentos foram expulsos.

As manifestações fazem parte da vida civil de uma sociedade democrática, isso é inegável. Mas a desconfiança da população da classe política em geral e principalmente dos partidos políticos que ao perderem sua linha mestra de pensamento se perderam de si mesmos causa preocupação a estrutura política brasileira, que tem no partido político o catalisador das forças que compõem a sociedade.

Se a Era Moderna acabou, estaríamos vivendo a Era Pós Moderna? A resposta é sim e não ao mesmo tempo, depende do referencial. Do ponto de vista do Estado o mundo ainda é moderno, pois depende de suas Instituições para funcionar, ainda que estejam esmaecidas e enfraquecidas. Nas eleições de 2014 votaremos em candidatos inscritos em partidos, é assim no Brasil e em qualquer outra democracia no mundo.

Outrossim, não nos olvidemos que os políticos eleitos que estão no poder não vieram de Marte. São brasileiros eleitos por brasileiros, e portanto, mudança real nenhuma ocorrerá se o povo não se organizar dentro de partidos políticos e eleger seus representantes e cobrá-los durante o mandato. O exercício da cidadania não traz bons frutos ao povo que dorme!

Se não tivéssemos dormido por tantos anos a situação não teria chegado a esse ponto de descrença e niilismo que se abateu sob a nação brasileira.

Do ponto de vista da população a Era Pós-Moderna foi inaugurada com os movimentos sociais que entraram na história do Brasil, haja vista estarmos assistindo a um movimento popular, apartidário, que portanto se opõem a um modo de fazer política imoral, que tende a aprofundar ainda mais o fosso que separa ricos e pobres. O movimento não é contra a estrutura do Estado Moderno.

Os movimentos sociais que entraram na história do Brasil mostraram que muita coisa tem que mudar.
Os movimentos sociais que entraram na história do Brasil mostraram que muita coisa tem que mudar.

Outrora haveria um partido político liderando o povo, como o MDB o fez por ocasião das “diretas já” nos idos dos anos 80. Outro traço do movimento que claramente indica uma postura pós moderna é a ausência de ideologias e de outros ideais estéticos e culturais que predominaram no século XX. A desvalorização e a aversão a ideologias demonstram um amadurecimento dos temas que realmente interessam para a melhoria da vida dos brasileiros em geral.

Alguns entendem que extremistas estão se apoderando das massas e alertam quanto ao que ocorreu na Alemanha com Hitler, na Itália com Mussolini, que implantaram governos ditatoriais em seus respectivos países. Entendo que essa visão não condiz com a realidade brasileira nem com o mundo pós moderno.

Assim o afirmo porque todos esses movimentos tinham como alicerce ideologias e nacionalismos exacerbados, sentimentos que não reverberam na atual sociedade brasileira, que quer apenas ser tratada com cidadania e respeito. Ademais, qual estrutura política teria capacidade de mobilizar tantas pessoas em cidades de norte a sul do Brasil?

A objetividade com que as principais pautas estão sendo tratadas (embora aparentemente desorganizadas), como o combate a corrupção, “cupim da república” nas palavras de Ulisses Guimarães, legitimo paladino da democracia, bem como a aversão aos gastos extravagantes com a Copa do Mundo, que infelizmente serviu  – aparentemente – de motivo para tanto desvio de verbas, demonstram que o velho modelo romano de se fazer política jogando pão e dando circo ao povo está com seus dias contados.

Enquanto isso, o poder que emana do povo através da mão invisível do imponderável nos guiará nessa travessia e enfrentamento sem precedentes. Parafraseando os Romanos: “Alia jacta est”: a sorte está lançada.